quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Torpor


Torpor: s.m. Sensação de indisposição ocasionada pela redução da sensibilidade e dos movimentos corporais; falta de sensibilidade; entorpecimento.
Sentimento de desânimo ou indolência; apatia ou prostração.
Medicina. Incapacidade para responder aos estímulos e/ou movimentos normais.
(Etm. do latim: torpor.onis)


Entro no trem e logo já percebo o clima. Dia cinzento em que as faces das pessoas parecem denunciar o que estão sentindo por dentro, e o que tal me parece é que estão sentindo um completo desespero e melancolia. É como se apenas seguissem seus caminhos, deixando-se levar por mais um dia enfadonho e cheio de tormentos. Parecem acomodar-se, apenas assistindo ao trágico show que suas vidas desempenham. Têm cor pálida, e suas pálpebras parecem despencar ao peso de seus problemas. Não há mais força para escapar, continuam imobilizadas. Seguem com o olhar o caminho do trem, apenas esperando a chegada ao seu destino. Estão isoladas, como a temer um instante de contato ou afeição pelo outro. Todos se trancam em seus livros, aparelhos de MP3 e revistas. Mesmo os que estão acompanhados por alguém parecem temer a conversa, como se fosse um ato de invasão à privacidade e aos segredos íntimos. Apenas se olham, e desconfortavelmente desviam o olhar, como a temer uma retaliação. Todos ficam em suas ilhas, presos ao conforto e ao contentamento com o modo como vivem, que por mais que não seja o almejado, ao menos é previsível e controlável, não traz os riscos nem os imprevistos de uma interação com os outros.
Pego desprevenido um trio de amigos, conversando sobre cinema, sobre quais filmes gostavam, quais diretores preferiam, e recebiam um completo ar de reprovação e até mesmo espanto das pessoas em volta. Era como se pensassem, “Mas por que esses malucos perdem tempo com esses filmes esquisitos? Bom mesmo é um bom e velho filme de ação, com bastante explosões e tiros para todo lado!” .
O céu que vai passando pela janela é escuro e nublado, olho desesperadamente a procura de um fio de luz ou raio de sol. O sol timidamente se esconde nas nuvens, como a sentir que o frio gélido daquele dia não é receptivo à sua quente e aconchegante presença.
Repentinamente percebo uma alegre presença de um grupo de crianças, brincando umas com as outras, felizes, sob o olhar incrédulo das pessoas à volta, todas desejando voltar à infância para viver, perdendo despercebendo a possibilidade de viver o lúdico, mesmo adultos.

Olho para a janela ao vaguear meus olhos e vejo, surgindo timidamente por detrás de uma nuvem, o brilho dourado e reconfortante do sol. O sol sempre aparece para quem busca o brilho da vida, sem se conformar com o cinza ofuscante de alguns dias ruins.

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